ARTIGOS

Alto mar




Autor: Claudinha Calzavara
Data: 09/08/2017

 

A tempestade passou. O mar está calmo. Por que, então, está tão mais difícil agora que antes?

 

Quando largamos a terra e vamos ao mar, conseguimos, por muito tempo, observar, ainda que de longe, o lugar do qual partimos. E isso nos dá certa segurança, por vezes enganosa, em lembrar-se das sensações que nós tínhamos naquele solo. Querendo ou não, nós sempre podemos voltar a terra. E, por mais que fique cada vez mais difícil retornar, ainda é mais fácil voltar que seguir em frente. Até que existe o momento em que tudo muda. Quando a terra é apenas um pequeno traço no horizonte e você sabe que, pouco mais adiante, tudo que verá será oceano ao seu redor.

Aqui mora grande angústia. É um passo mais difícil que aquele de sair da terra. A ousadia de seguir em frente sem olhar pra trás, nesse ponto, é tão dolorosa que muitos jogam a âncora e desejam permanecer ali. Por que não ficar? Afinal, você nunca havia chegado tão fundo. Já estava tão mais fundo que tantos. Você não tinha voltado. Apenas parado e, digo mais, nem havia desejado voltar. Pelo menos, não ainda.

Contudo, quem não progride, regride! E o tempo que você passa parado naquele ponto do mar vai deixando tudo cada vez mais cômodo, o que faz com que você fique ali, deitado no barco, sem ação, por mais e mais tempo. Você sente o vento soprar, mas fica cada vez mais difícil tomar as cordas e voltar a içar as redes. E, de que vale o vento sem redes aprumadas para se preencherem daquilo e seguir o seu caminho? A comida vai diminuindo, o que te faz perceber que o tempo não parou com a sua decisão de parar de navegar. Nesse ponto, as dúvidas passam pela sua cabeça. Você já não sabe se é mais rápido voltar ou seguir, porque não só a distância é importante para saber o tempo que você toma para cumprir um percurso. Nunca se sabe quando vai aparecer uma tempestade. E, por mais que dê para ver aquela faixinha de terra no horizonte, você não sabe quão longe está o seu destino final, porque você olha, mas não vê nada, além de mar.

Neste instante a calmaria do barco à deriva vira um desespero, e por mais que o mar esteja tranquilo, a alma é tomada por tsunamis e, aqui, você percebe que precisa tomar uma nova decisão. Tão importante quanto à de sair da terra, mas, certamente, mais difícil.

Você já navega há um bom tempo, isso não é nenhuma novidade para você. Até chegar aqui você lutou bastante, superou tempestades e ondas maiores que a altura do seu barco e que o encheram de água. Quando estava na iminência de afundar, você não desistiu e, de balde em balde, retirou a água que entrava. Você persistia. Ainda que, depois de muito esforço, uma nova onda colocasse a sua navegação em risco outra vez. A tempestade passou. O mar está calmo. Por que, então, está tão mais difícil agora que antes? Afinal, o quê de tão temeroso há nas águas mais profundas, além de estar mais perto do destino e mais distante do início?

Agora o que mais se deseja é já estar em um ponto em que voltar não seja mais viável. Mas, para isso, é preciso avançar um pouco mais. E o caminho a seguir é mistério. Você precisa só de um pouco mais de força, não física, o mar está calmo, lembra? Mas de força de vontade, da força da coragem que te faz perceber que o melhor da terra foi sair dela e o que te espera é um Porto Seguro aos Navegantes lá no teu destino final.

Põe-se de pé, apruma as velas, vê elas se preencherem. Preenche também teu pulmão com esse ar que te circunda. E segue. Aprecia a vista apenas azul que chega a confundir o que é mar e o que é céu. Navega, então, por vezes no mar, por vezes no céu, mas sempre em frente. E quando for noite e tudo parecer mais confuso, lembra que só no escuro que verás as estrelas que te guiam.

Você percebe? Precisas tomar uma decisão. Mas isso não envolve parar. Ou se vai, ou se volta. Feliz mesmo é quem vai até que não dê mais para voltar, pois o barco estará, enfim, em alto mar.

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